Apesar de França ser o país com o maior número de casamentos mistos, existe um verdadeiro desconhecimento no que diz respeito à beleza afro e aos cabelos mestiços. Durante muito tempo associado a comércios étnicos, o mercado global da beleza negra está, no entanto, a passar por uma profunda revolução. Atualmente, à semelhança de modelos caucasianas, musas de pele escura estão a fazer furor em campanhas publicitárias de grandes marcas como Jourdan Dunn (Yves Saint Laurent), Lupita Nyong’o (Lancôme), Winnie Harlow (Desigual), Rihanna (Mac) ou Sonia Rolland (Mixa). Infelizmente, França ainda está muito longe de rivalizar com os seus vizinhos do outro lado do Atlântico. Propomos, então, fazer um pequeno panorama para conhecer as razões do atraso de França no que diz respeito ao mercado afro.
UM ATRASO NA MODA...
De acordo com um estudo, em fevereiro de 2013, 82,7% das modelos contratadas durante a Fashion Week eram brancas, contra 9,1% asiáticas e 6% negras. A causa desta discriminação seria explicada pela escassez de modelos étnicas nas agências de moda em França. Prova de que o país acumula um grande atraso em relação aos Estados Unidos e ao resto do mundo. Alguns sociólogos da moda afirmam, aliás, que estas modelos não caucasianas têm mais hipóteses de fazer carreira além-Atlântico, onde são melhor e mais representadas. Isso, no entanto, não impede a discriminação nos Estados Unidos. Lembrem-se, recentemente falei-vos de a revista aos cabelos de mulheres negras em algumas alfândegas americanas.
… MAS AVANÇOS NA BELEZA!
No que diz respeito à beleza afro, a sociedade francesa também está atrasada, embora possamos notar algumas melhorias. Marcas de cosméticos dedicadas a belezas étnicas, gamas de produtos especialmente concebidos para cabelos crespos, bases adaptadas às diferentes cores de pele, as marcas de cosméticos parecem estar mais avançadas neste domínio. De facto, hoje em dia as mulheres de pele negra podem comprar os seus produtos cosméticos noutros locais que não Château Rouge ou Château d’Eau em Paris. Elas já não precisam de se reunir em fóruns para fazer compras em grupo de cosméticos em sites estrangeiros. Em 2017, basta ir à grande distribuição para perceber que o setor da beleza étnica se democratizou pouco a pouco.
AINDA HÁ UM LONGO CAMINHO A PERCORRER
Mesmo que as marcas de cosméticos não parem de alargar a sua gama e produtos para responder às múltiplas necessidades das consumidoras africanas, os produtos oferecidos continuam a ser muito poucos em comparação com a quantidade astronómica proposta para peles brancas. Poderíamos quase comparar esta diferença àquela conhecida entre as lojas de pronto-a-vestir para homens e mulheres. Os homens têm muito menos escolha do que as mulheres. E este cenário repete-se no domínio dos cosméticos: as belezas étnicas têm muito menos escolha do que as mulheres caucasianas. Enquanto as mulheres negras consumiriam 9 vezes mais cosméticos do que uma caucasiana, com um orçamento de 980 euros por ano.
PORQUÊ ESTE ATRASO?
Segundo a minha análise muito pessoal, este atraso deve-se à nossa mentalidade. Como em todos os países, a França tem a sua própria visão da beleza. E, infelizmente, o estereótipo de beleza é do tipo caucasiano. É por isso que tantas mulheres negras têm dificuldade em assumir os seus cabelos crespos e o seu tão belo afro. É-lhes ensinado desde tenra idade que os seus cabelos são «fora do padrão» e que é preciso alisá-los, desfrisá-los ou escondê-los sob extensões. E enquanto a indústria da moda não se dignar a mudar os seus hábitos em termos de modelos, isso não deverá evoluir.